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RECOMEÇO

 Desculpa. Está tudo bem. Realmente desculpe-me Por deixar chegar até aqui. Está tudo bem mesmo. Mas desculpe. Sim. Desculpa por ficar em silêncio. Calado e sozinho. Não é por mal, foi por bem. Mas sabe, se eu te disser Você não vai entender. Entretanto, preciso que aceite. E compreenda. Por mais que eu queira continuar Infelizmente chegou ao fim. Sim, felizmente, o fim. Não O FIM. Mas, um final feliz, quem sabe. Não por estar feliz por isso Em ter encontrado o fim Mas por ter chegado até aqui.
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O SEGREDO DA POESIA

O segredo da poesia é o tempo. Pois a vida é feita de tudo e nada, daquilo que nós fizemos, do que não realizamos e que só a poesia consegue narrar. Poesia é viver aquilo que não aconteceu. É aquele filme não assistido, adormecido; aquela coleção de livros comprada e não lida; aquela roupa esquecida no guarda-roupa. Aquele carrinho sem as rodas no canto, a primeira professora, a primeira nota. É a mensagem escrita e não enviada, a carta que nunca chegou ao destino. É aquela gargalhada pura que ressoa nos fundos da mente. É a voz da bisavó que ainda ecoa num olhar registrado há anos e anos. Poesia está numa frase que ficou na cabeça, nos sorrisos dos amigos nas fotografias, na música que insiste em pedir bis, naquilo que foi dito, mas se perdeu ao vento. O gole do café quente que aqueceu uma manhã fria, os pássaros voando num dia ensolarado, são lembranças das quinquilharias de um antiquário, a rua de que não se lembra mais o caminho. A vida escrita é como a poesia de um poema vivido, m...

O QUE SOBRA É POESIA

Quando tudo se vai, quando a luz se apaga, quando não se ouve nem um só riso ou lamento ecoando sozinho no vento, o que resta são as palavras espalhadas pelo chão do papel que clama por verso. Quando não restar mais nada, absolutamente nada, nenhuma voz, nem um grito — escute: quando a poesia chamar, atenda, pois ela sempre tem algo novo a trazer. Só resta prometer escrever pelo menos uma poesia por dia, mesmo que ela não tenha métrica, rima, mas que dê para o gasto ou que sirva de alimento para a esquecida folha que soluça em prantos, igual cachorro faminto. Não seja poeta. Escreva. Palavras são raridades que podem, no futuro, valer algumas poucas bugigangas. Escreva, escreva, escreva. Não deixe a sua memória atrofiar e as suas mãos enferrujarem feito um carro antigo e velho parado na porta. A poesia é o que resta. O poema vale a pena. Já pensou que, no mundo dos poetas, as letras valem como moedas que podem virar sementes e, assim, plantarem um bosque de livros e salvar toda a humani...

O RATO

Sou um rato! Conheço cada canto desse quarto. Sou raro! Por isso procuro o melhor para comer. Sou apenas um entre muitos da minha espécie! Mas aproveito bastante o quanto posso ao estar vivo. Tenho odor forte que exala da tardinha até o amanhecer, anunciando com hipocrisia a minha cínica presença. Uma vez que estou pelos telhados e buracos do piso, desfilando pelas paredes, prateleiras e armários, também dentro do fogão, nos caibros e canos da pia, buscando sempre o que comer incessantemente. Às vezes, nem o puro veneno consegue dar-me fim. Mas quando um dos nossos, desta feita, não sai ileso, não lhe resta mais nada senão se deixar morrer. Em contraponto, estou Eu na história! Como um ditador autoritário e absoluto. Sou aquele que mata milhões ao redor do mundo!? Em todas as épocas, estações e temporadas. Sim, estarei lá, Eu, Rattus rattus, pela Ásia, Europa e Américas, levando a praga! Pois não sou um homem, sou um Rato!

Jantar Nordestino

  Quando a comida ficava pronta, a mamãe chamava para jantar todos os filhinhos, que vinham correndo, sorrindo e famintos para ao redor da longa mesa.   O Pai ia colocando os pratos na frente dos filhinhos, um de cada cor e tamanho.   A mãe trazia a panela, entregava para o marido, que junto dela, trazia uma colher de concha. Então cada filhinho era servido: O primeiro, olhando o prato enquanto a mãe colocava uma porção, dizia: - Oxente, mãezinha, só isso?! A mamãe seguia então com o papai servindo os demais filhinhos. E quando colocava uma concha de sopa no prato, o segundo filho dizia: - Vixe, mãe, só isso?! E o papai seguia a mamãe que continuava a servir os filhinhos. Colocando também uma concha no prato do terceiro filhinho que dizia: - Armaria, mainha! Só isso?! O papai olhava torto as criancinhas e saia atrás da mãe que ia colocando a colher grande na panela e servia o quarto filhinho, que ao receber a sua porção, falava: - Valha, mamãe?! Só i...

MANIFESTO CULTURAL E ARTÍSTICO CAXIENSE

Não é de agora que a cidade de Caxias-MA respira uma história antiga, memorável e relevante no contexto nacional. No entanto, atualmente, está sendo asfixiada, se encontra ofegante, conseguimos ouvir seus últimos suspiros e cada vez torna-se invisível aos olhos de seus habitantes. A notória cidade berço de poetas, terras das águas cristalinas e saudosa princesinha do sertão, dia após dia, se torna apenas uma paisagem de um quadro vandalizado pela própria atitude de distanciamento da sua história. Percebe-se a não existência de uma preocupação pela identidade patrimonial e cultural, que, observando a passagem do tempo, os bens materiais e imateriais estão à deriva, abandonados, esquecidos e sendo apagados do saber popular e sobretudo, deixando um vazio para o futuro das gerações. Uma vez que não só as pessoas, mas as casas, ruas, praças e estabelecimentos também guardam e contam histórias. Histórias que atravessam e refletem nas épocas, no agora, no amanhã, quem sabe. Porém, acabam se...

CAXIAS EM POUCAS PALAVRAS

Caxias do Maranhão, outrora Aldeia de Guanarés, tribo de oito mil indígenas que habitavam as margens do Rio Itapecuru, um dos quatro principais rios do Maranhão. Após aniquilação de quase toda tribo e destruição de suas aldeias pela invasão portuguesa e espanhola, com participação dos jesuítas e as companhias de jesus, mais tarde, receberia os títulos de arraial, vila e por último de cidade. Situada no meio Norte maranhense, área de transição entre os biomas amazônico e o atlântico, demonstra quase duzentos mil habitantes e quase trezentos anos de existência. A região onde a cidade se localiza é denominada Cocais, que é abundante em palmeiras de Babaçu e outras, como a Macaúba, Tucum e Buriti. A planta é autêntica do Brasil, principalmente nos Estados do Pará, Tocantins, Piauí e grande parte no Maranhão.  Em Caxias irrompeu a última revolta por liberdade desde os remanescentes estouros por independência, que ocorriam desde os primeiros anos de dominação territorial e exploração de ...

EXILIUM: O POEMA

A Palmeira A Canoa O Rio As Pedras A Ponte O Trem O Morro O Mar A Fonte A Serpente A Flor A Estrela O Coração O Olho A Lua O Coco O Pássaro O Riacho O Palácio A Torre A Revolta O Porto da Pólvora O Arraial As Aldeias A Vila Caxias Cidade das Águas Cristalinas A Princesinha do Sertão. Sidny Brito, Caxias Maranhão. Em 18 de julho de 2020.