O segredo da poesia é o tempo.
Pois a vida é feita de tudo e nada,
daquilo que nós fizemos,
do que não realizamos
e que só a poesia consegue narrar.
Poesia é viver aquilo que não aconteceu.
É aquele filme não assistido, adormecido;
aquela coleção de livros comprada e não lida;
aquela roupa esquecida no guarda-roupa.
Aquele carrinho sem as rodas no canto,
a primeira professora, a primeira nota.
É a mensagem escrita e não enviada,
a carta que nunca chegou ao destino.
É aquela gargalhada pura
que ressoa nos fundos da mente.
É a voz da bisavó que ainda ecoa
num olhar registrado há anos e anos.
Poesia está numa frase que ficou na cabeça,
nos sorrisos dos amigos nas fotografias,
na música que insiste em pedir bis,
naquilo que foi dito, mas se perdeu ao vento.
O gole do café quente que aqueceu uma manhã fria,
os pássaros voando num dia ensolarado,
são lembranças das quinquilharias de um antiquário,
a rua de que não se lembra mais o caminho.
A vida escrita é como a poesia
de um poema vivido, mas nunca declamado.
Sid Brito Sertão
Caxias-Maranhão, 3 de janeiro de 2026.
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